Para muitas pessoas autistas, o mundo pode ser um lugar barulhento, intenso e, às vezes, doloroso. O que parece comum para a maioria — como um supermercado cheio, uma luz forte ou o som de várias conversas ao mesmo tempo — pode causar sobrecarga sensorial em quem tem o sistema nervoso mais sensível a estímulos externos.
Neste artigo, vamos entender o que é essa sobrecarga, como reconhecê-la e, principalmente, como criar estratégias práticas para lidar com ela no dia a dia.
O que é a sobrecarga sensorial
A sobrecarga sensorial acontece quando o cérebro recebe muitos estímulos ao mesmo tempo — sons, cheiros, luzes, toques, movimentos — e não consegue processá-los adequadamente.
É como se todos os sentidos estivessem “ligados no máximo”, e a pessoa não tivesse como filtrar o que é importante e o que não é. Isso pode causar irritação, ansiedade, confusão e, em casos mais intensos, crises de desregulação emocional ou física.
Principais gatilhos sensoriais
Cada pessoa autista tem seus próprios gatilhos, mas alguns são bastante comuns:
- Sons altos ou repetitivos: buzinas, vozes sobrepostas, música alta, eletrodomésticos.
- Luzes fortes ou piscantes: lâmpadas fluorescentes, telas, vitrines iluminadas.
- Cheiros intensos: perfumes, produtos de limpeza, alimentos específicos.
- Toques inesperados: pessoas esbarrando, roupas com etiquetas, tecidos ásperos.
- Ambientes movimentados: shoppings, festas, escolas, transporte público.
Reconhecer os gatilhos é o primeiro passo para se proteger e planejar estratégias que evitem ou amenizem a sobrecarga.
Como identificar que a sobrecarga está chegando
A sobrecarga sensorial nem sempre acontece de forma repentina. Ela pode se acumular aos poucos até que o corpo e a mente não consigam mais lidar.
Alguns sinais de alerta incluem:
- Dores de cabeça ou tensão muscular;
- Irritação ou vontade de se isolar;
- Dificuldade de concentração;
- Hipersensibilidade (barulhos e luzes parecem mais fortes do que o normal);
- Desejo de fugir do ambiente imediatamente.
Reconhecer esses sinais precoces é essencial para agir antes que a crise se instale.
Estratégias práticas para lidar com a sobrecarga
Aqui vão algumas ações simples, mas muito eficazes, para amenizar os efeitos da sobrecarga sensorial:
1. Use fones com cancelamento de ruído
Eles são um grande aliado no dia a dia. Ajudam a reduzir sons de fundo e trazem sensação imediata de conforto. Mesmo fones simples já fazem diferença.
2. Carregue óculos escuros
As luzes artificiais podem ser muito agressivas. Usar óculos escuros em ambientes fechados não é “estranho” — é uma forma de proteger o seu bem-estar.
3. Prefira roupas confortáveis
Evite tecidos ásperos, etiquetas e costuras incômodas. Se possível, crie um “guarda-roupa sensorialmente amigável”, com peças que tragam conforto e não causem irritação na pele.
4. Crie espaços de refúgio
Em casa, reserve um local silencioso e acolhedor, onde você possa se recuperar de estímulos intensos. Pode ser um quarto, uma poltrona ou até um canto com luz baixa e uma manta.
5. Faça pausas estratégicas
Se estiver em um ambiente com muito movimento, tente se afastar periodicamente para respirar, beber água ou apenas ficar em silêncio por alguns minutos. Essas pausas evitam que a sobrecarga se acumule.
6. Use ferramentas sensoriais
Algumas pessoas se beneficiam de fidget toys, cobertores pesados ou aromaterapia suave. Encontre o que funciona para você — cada corpo reage de um jeito.
7. Planeje com antecedência
Antes de ir a um lugar potencialmente desafiador, pense em estratégias: levar fones, ir em horários mais tranquilos, ter um plano de saída caso o ambiente se torne insuportável. Antecipar é se proteger.
8. Avise pessoas de confiança
Se estiver acompanhado, avise alguém de confiança sobre seus gatilhos e sinais de sobrecarga. Assim, essa pessoa pode te ajudar a sair do ambiente sem julgamentos ou explicações longas.
Após a sobrecarga: o momento da recuperação
Quando a sobrecarga acontece, é importante não se culpar. Isso não é fraqueza — é o corpo pedindo descanso.
Após uma crise, o ideal é buscar um ambiente calmo, evitar luzes fortes, sons altos e ficar em silêncio. Respiração profunda, música suave ou atividades repetitivas e previsíveis (como organizar algo ou desenhar) ajudam o cérebro a se acalmar.
A importância do autoconhecimento sensorial
Cada pessoa autista tem um perfil sensorial único. Por isso, vale a pena observar e registrar o que causa desconforto e o que traz alívio. Com o tempo, você cria um mapa sensorial pessoal, que ajuda a se preparar melhor para as situações cotidianas.
Entender o próprio corpo é uma forma poderosa de reduzir o estresse e viver com mais tranquilidade.
Viver bem com a sensibilidade
Ser sensorialmente sensível não é um defeito — é apenas uma característica. Essa percepção aguçada também permite notar detalhes e sensações que outras pessoas ignoram.
Aprender a lidar com isso é um processo de autocuidado e aceitação.
Com o tempo, você deixa de se forçar a suportar o insuportável e passa a criar um mundo que respeita o seu ritmo.
💙 “Proteger seus sentidos não é isolamento. É amor-próprio.”
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Este blog é baseado na minha experiência pessoal como autista e tem fins informativos e de representatividade. Não é um substituto para o aconselhamento médico ou diagnóstico profissional.
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