A comunicação é o palco onde a diferença neurotípica e neurodivergente mais se manifesta. Para o adulto autista, que tende ao pensamento literal e à necessidade de clareza, a conversa cotidiana neurotípica — repleta de sarcasmo, ironia e metáforas — pode parecer um campo minado de mal-entendidos.
Se você já se sentiu ofendido por um comentário que era, na verdade, uma piada, ou ficou confuso sobre o que um colega de trabalho realmente queria dizer, você está enfrentando o desafio da linguagem figurada.
O segredo não é tentar decodificar tudo perfeitamente, mas sim criar um sistema de comunicação assertiva que funcione para você e para as pessoas que se importam com você.
O Desafio da Literalidade
O pensamento literal é a tendência de interpretar palavras e frases com seu significado exato, sem considerar o contexto social ou a intenção por trás delas.
| Linguagem Figurada (Neurotípica) | Interpretação Literal (Autista) |
| “Isso está de matar.” (Um sabor muito bom) | “Alguém vai morrer? É perigoso comer?” |
| “Pegue leve.” (Seja mais brando/gentil) | “Devo pegar no objeto com menos força?” |
| “Vou fazer a barba.” (Raspar a barba) | “Ele vai criar uma barba nova?” |
| “Você é um anjo!” (Você foi gentil) | “Eu sou um ser celestial? Não entendi o elogio.” |
Exportar para as Planilhas
Essa diferença de processamento não é uma falha, mas sim uma característica. Ela se torna um problema quando o esforço constante para traduzir a conversa leva ao esgotamento cognitivo e ao isolamento.
Estratégias para Decodificar a Linguagem Neurotípica
Você pode treinar seu cérebro para reconhecer padrões na linguagem figurada, da mesma forma que aprende sobre seu hiperfoco.
1. Crie um “Banco de Dados” de Expressões
Quando ouvir uma frase figurada que você não entende:
- Pergunte Diretamente: Em um momento apropriado (de preferência, depois da conversa), pergunte a alguém de confiança: “O que a frase ‘chover no molhado’ realmente significa? Qual é o sentido dela?”
- Contextualize e Categorize: Crie uma lista mental ou física de expressões e seu significado social. “Fazer a barba” = “Remover a barba”. “Matar o tempo” = “Passar o tempo”.
2. Procure Sinais Não Verbais (Com Cautela)
Embora o autista tenha dificuldade em ler sinais não verbais intuitivamente, você pode aprender a correlacionar alguns sinais básicos:
- Sarcasmo/Ironia: Pode ser acompanhado por uma entonação exagerada, um revirar de olhos (sinal de que o falante não está falando sério) ou uma pausa. Preste atenção à entonação, mais do que à expressão facial.
- Humor: Se a outra pessoa está sorrindo ou rindo depois da frase, é provável que seja uma tentativa de humor e não uma declaração literal séria.
3. A Estratégia da Confirmação (Assertividade)
Em situações cruciais (trabalho, relacionamentos), confirme a informação para garantir a clareza.
- Exemplo: Se seu chefe diz: “Vamos tirar isso de letra”. Você pode responder: “Para confirmar, você quer dizer que esta tarefa será simples e que não devo me preocupar com grandes obstáculos?”
Expressando Seus Sentimentos com Clareza (Comunicação Sem Filtro)
A expressão dos sentimentos pode ser um desafio duplo: a dificuldade de identificar a própria emoção (Alexitimia) e a tendência de falar “sem filtro” (franqueza excessiva).
1. Mapeie Suas Sensações Corporais (Alexitimia)
Muitos autistas experimentam emoções como sensações físicas intensas (dor de estômago, dor de cabeça, aperto no peito) antes de nomeá-las:
- O “Verificador Corporal”: Quando se sentir mal, pare e pergunte-se: “Onde estou sentindo isso? Meu estômago está apertado? Minha mandíbula está tensa?”
- Conexão: Se o estômago está apertado antes de um evento social, traduza: “Estou sentindo ansiedade.”
2. A Técnica do Sanduíche de Comunicação
Se você precisa dar um feedback ou expressar uma crítica (sua comunicação natural é a crítica franca, o que pode machucar), use esta técnica:
- Elogio Genuíno (Pão de Cima): Comece com algo positivo e verdadeiro. “Adorei a forma como você organizou a introdução do projeto.”
- A Crítica Direta (O Recheio): Apresente o ponto de forma clara e focada no comportamento/situação, não na pessoa. “No entanto, o prazo de entrega me parece irrealista e me deixa ansioso.”
- Reforço Positivo/Solução (Pão de Baixo): Termine com um reforço positivo ou uma proposta de solução. “Com um dia a mais, posso garantir um resultado excelente. Agradeço sua compreensão.”
Ao reconhecer e adaptar sua forma de comunicação, você reduz mal-entendidos, protege sua energia e, mais importante, permite que os outros vejam sua honestidade como uma qualidade, não um obstáculo.
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